gravadora

Título: Todo Sentimento
Ano: 2016
Número: 073
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1 LUKINHA 5:18
Romero Lubambo

Romero Lubambo violão
Mauro Senise flauta
Bruno Aguilar contrabaixo
Mingo Araújo percussão

 


2 CHORA, BAIÃO
5:32
Antonio Adolfo

Romero Lubambo violão
Mauro Senise sax alto
Bruno Aguilar contrabaixo
Mingo Araújo percussão

 


3 DA COR DO PECADO
5:54
Bororó

dedicada à D. Nirinha Lubambo,
mãe do Romero

Romero Lubambo violão
Mauro Senise flauta em sol

 


4 CANDEIAS
5:19
Edu Lobo

Edu Lobo voz
Romero Lubambo violão
Mauro Senise flauta
Bruno Aguilar contrabaixo

 


5 SAUDADE DO RIO
4:50
Nelson Faria

Romero Lubambo violão
Mauro Senise sax alto

 


6 LINDA FLOR
7:10
Henrique Vogeler | Luiz Peixoto
Cândido Costa | Marquês Porto

Romero Lubambo violão
Mauro Senise sax alto
Kiko Horta acordeom

 


7 PRO RAPHAEL
3:39
Romero Lubambo

Romero Lubambo violão
Mauro Senise flauta | piccolo
Mingo Araújo percussão

 


8 ALWAYS AND FOREVER
6:23
Pat Metheny

Romero Lubambo violão
Mauro Senise sax soprano

 


9 ITACURUÇÁ
6:06
Romero Lubambo | Pamela Driggs

Romero Lubambo violão | tamborim
Mauro Senise flauta
Bruno Aguilar contrabaixo
Mingo Araújo percussão

 


10 SÓ ME FEZ BEM
3:39
Edu Lobo | Vinicius de Moraes

Edu Lobo voz
Romero Lubambo violão
Mauro Senise sax alto
Bruno Aguilar contrabaixo

 


11 DONA TECA GANHOU ASAS
6:31
Jota Moraes

Dedicada à mãe do Mingo
Jota Moraes vibrafone | palmas | mãos esfregando
Romero Lubambo violão

Mauro Senise sax soprano
Mingo Araújo percussão | mãos esfregando

 


12 O IMPÉRIO CONTRA ATACA
3:25
Gilson Peranzzetta

Romero Lubambo violão
Mauro Senise flauta

 


13 TODO O SENTIMENTO
6:12
Cristovão Bastos | Chico Buarque

arranjo para violão inspirado na idéia
original de Cristovão Bastos

Romero Lubambo violão
Mauro Senise sax soprano

 


produzido por Ana Luisa Marinho
concepção do projeto Mauro Senise | Romero Lubambo | Ana Luisa Marinho
direção musical Romero Lubambo | Mauro Senise
gravação e mixagem Gabriel Pinheiro
assistência de gravação João Thiré | Lucas Ariel
estúdio Biscoito Fino Rio de Janeiro
masterização Luiz Tornaghi estúdio Batmasterson
direção de arte Felipe Taborda
design Augusto Erthal | Talita Garcia
fotografias e bonequinhos Ana Luisa Marinho
fotos bonequinhos Rodrigo Lopes

 



 

realização

FINA FLOR

 

 

direção artística
Ruy Quaresma

 

 

Delicadeza debaixo dos dedos

Depois de te perder/Te encontro, com certeza/Talvez num tempo da delicadeza.”

Letra de Chico Buarque para Todo o sentimento

 

Por ROBERTO MUGGIATI

Como todo músico, Mauro Senise às vezes se isola na sua nuvem de som. Mas sempre sabe o momento certo de voltar à realidade – e é extremamente articulado ao traduzir sua arte em palavras. Um dos conceitos que mais cultua é o de “botar a música debaixo dos dedos” – coisa que só se alcança à custa de muito trabalho e disciplina. Assim tem sido ao longo de seus 34 anos de carreira fonográfica e, mais intensamente, nos tempos recentes. Não por acaso, seus companheiros de gravação também aderem à idéia da música debaixo dos dedos, o que explica a presteza com que os trabalhos transcorrem no estúdio.

 

Em 2016, aos 66 anos, Senise ignorou a crise: serão três álbuns neste ano, verdadeira façanha para um instrumentista brasileiro. A presença do violonista Romero Lubambo em Amor até o fim: Mauro Senise toca Gilberto Gil levou a um novo CD, Todo sentimento: Mauro Senise e Romero Lubambo, que será lançado em outubro. E a participação de Edu Lobo nesse disco levou a um terceiro álbum, que será gravado em outubro: Edu Lado B, com temas menos conhecidos do mestre.

 

Romero Lubambo, carioca, 61 anos, começou a aprender violão sozinho, ainda adolescente. Aos dezessete anos foi aprofundar seus conhecimentos na Escola de Música Villa-Lobos. Seu talento inquieto o levou à música improvisada e aos Estados Unidos, onde mora desde 1985. Lá tocou, entre outros, com o flautista Herbie Mann, os saxofonistas Michael Brecker, e Paquito de Rivera e os cantores Al Jarreau, Harry Belafonte, Astrud Gilberto e Dianne Reeves, de quem se tornou também arranjador.

 

Mauro e Romero começaram a tocar juntos no início dos 1980, nas jam sessions do Viro da Ipiranga, no Baixo Laranjeiras. Foi lá que surgiu a primeira versão, o embrião do lendário grupo Cama de Gato, com Mauro, Romero, Pascoal Meireles e Nilson Matta, que ensaiavam na casa do Pascoal. Foi Nilson quem deu o nome ao grupo. Depois Romero e Nilson foram morar nos EUA (onde formam o Trio da Paz, com o baterista Duduka da Fonseca), mas Mauro e Romero, apesar da distância geográfica, continuam inseparáveis e sempre em contato com o trabalho do outro. (Romero a Mauro: “Eu posso estar na Lua, você em Marte, mas a gente sempre está junto.”)

 

O álbum anterior da parceria Mauro-Romero (Paraty,1997) é uma viagem descontraída a clássicos da bossa nova (Inútil Paisagem, Fotografia, Influência do jazz, O barquinho) – e a temas como O ovo do Hermeto; Beatriz, de Edu Lobo e Chico Buarque; dois originais de Romero e a faixa-título, do baixista Nilson Matta, que tem participação especial no disco. Em Paraty, Mauro e Romero são tão bons como sempre foram, mas, de lá para o novo disco, quase vinte anos depois, há um salto marcante – de amadurecimento e concisão.

 

A escolha do repertório fluiu naturalmente, com preferências de um e de outro. Romero contribuiu com três composições originais: Lukinha, para a filha Luísa; Pro Raphael (Rabello, o gênio trágico que saiu mais cedo, em 1995, aos 32 anos); e Itacuruçá, “onde tínhamos uma casa na prainha, linda.” Mauro resgatou duas pérolas da Era do Rádio: Linda Flor (Ai, Ioiô) e Da Cor do Pecado, de Alberto de Castro Simões da Silva, o Bororó. Linda Flor, considerada o primeiro samba-canção de sucesso, foi composta pelo maestro Henrique Gypson Vogeler, diretor artístico da gravadora Brunswick, com a letra definitiva dos “revistógrafos” Luís Peixoto e Marques Porto para a gravação de Araci Côrtes (em1929), diferente das letras gravadas por Vicente Celestino e Francisco Alves, pouco antes no mesmo ano. Em Da cor do pecado (lançada em 1939 por Sílvio Caldas) tocam apenas Romero e Mauro, que dá seguimento a suas investigações sonoras soprando a flauta em sol sobre as cordas de um piano com o pedal direito acionado. Senise vem se tornando cada vez mais exímio nas distorções de timbre, uma característica forte nos seus saxofones e flautas. Outras quatro faixas do total de treze são apenas com o duo: violão e sax soprano em Always and Forever (tema pouco conhecido de Pat Metheny) e Todo o sentimento (do pianista Cristóvão Bastos com letra de Chico Buarque); violão e sax alto em Saudade do Rio (de Nelson Faria) e violão e flauta em O Império contra-ataca (de Gilson Peranzzetta).

 

A formação do grupo foi radicalmente enxugada para este álbum, sem bateria nem piano. Além de Mauro e Romero, o quarteto – com a adição de Bruno Aguilar, um contrabaixista pulsante e melódico; e Mingo Araújo, o mago da percussão – toca em Lukinha, Chora, baião (de Antônio Adolfo) e Itacuruça. A percussão sai e o baixo fica nas duas faixas com Edu Lobo: Candeias (escolha de Romero) e Só me fez bem (uma favorita de Mauro) – a voz bonita de Edu valorizando as letras, a sua e a de Vinicius. Em Pro Raphael, sai o baixo e fica a percussão.

 

Músicos convidados: em Linda Flor, na segunda parte, surge, como uma lírica surpresa, o acordeão de Kiko Horta. Em Dona Teca ganhou asas – dedicada à mãe de Mingo – entra o compositor do tema, Jota Moraes, tocando vibrafone na companhia de Romero, Mauro e Mingo.

 

Romero é um violonista virtuoso, um perfeccionista que nunca deixa a técnica se sobrepor à emoção. Na sua escrita sutil as notas fluem, cristalinas e belas; pensamos às vezes mais além, nos dedilhados de Paco de Lucia ou de Andrés Segovia.

 

Existe um cânone no instrumental brasileiro? Antônio Adolfo, nas notas de capa do CD Chora Baião, diz que a síntese de samba, choro e baião “ocorreu apesar do fato de que, melódica e harmonicamente, cada um destes estilos foi submetido a influências muito diferentes: cantos africanos (samba), danças europeias e música clássica (choro) e a atmosfera musical mourisca da Península Ibérica (baião). Essa maravilhosa mistura – mais um gosto de jazz (daí a bossa) e blues – resultou numa combinação muito especial que se tornou e persiste muito popular entre os músicos brasileiros.” É esse o território – sempre cambiante e sujeito a novos acréscimos – explorado por instrumentistas como Mauro e Romero.

 

No DVD de Amor até o fim, em conversa com Mauro, Romero resume todo o sentimento que une a grande família instrumental: “O que a gente toca é, na verdade, o espelho dessa amizade, dessa influência. Não é uma questão de duas ou três horas de estúdio, é uma questão de cinqüenta anos: cada nota que eu dou, que você dá, tem cinqüenta anos atrás, tem toda a história de uma vida. E é assim que você aprende, ouvindo e abrindo o coração para essa energia toda.”

 

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