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Título: Primeiro Céu
Ano: 2015
Número: 059
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Bianca Gismonti

 

Do sonho ao céu

 

 

Por Roberto Muggiati

 

 

Picasso dizia: “Eu não procuro, eu acho.” E se desdizia: “Eu não acho, eu procuro.” O primeiro álbum de Bianca Gismonti é de busca; já o segundo não procura, ele acha. Viaja das explorações às soluções, do estado larvar adormecido de Sonhos de Nascimento ao voo livre da borboleta em Primeiro céu.

 

Toda a arte de Bianca nasceu naturalmente das tramas afetivas que ela soube tecer ao longo da vida. Herdou a musicalidade do pai – o pianista, violonista e compositor Egberto Gismonti; a mãe, a atriz Rejane Medeiros – musa do cinema brasileiro – legou-lhe a beleza e a teatralidade. Aos 15 anos, ela e o irmão Alexandre – violonista – começaram a tocar com o pai pelos palcos do mundo. Antes dos 20, Bianca iniciou um trabalho com a amiga atriz Leandra Leal que a fez descobrir a magnitude do palco. Para Shakespeare, “o mundo é um palco.” Bianca inverte a equação: “O palco é um mundo.” Na UFRJ, ficou amiga de Claudia Castelo Branco e, em 2005, criou com ela o Duo Gisbranco (em dez anos de carreira, são três álbuns, um DVD e dezenas de turnês nacionais e internacionais).

 

Já o encontro de Bianca com o baterista e percussionista Julio Falavigna aconteceu em 2009. Almas irmãs, levaram o casamento para a área musical, construindo juntos o primeiro álbum, Sonhos de Nascimento. Em 2013, com a adesão do baixista Antonio Porto, nasceu o trio, a partir de uma identificação musical muito forte. Um trio que foge ao convencional – normalmente baixo e bateria acompanhando o piano – para atuar como uma entidade interativa o tempo todo. Na verdade, o trio somou a diversidade e riqueza da experiência individual de cada um dos seus integrantes.

 

Julio Falavigna, gaúcho de Caxias do Sul, começou aos 13 e já aos 17 explorava a cena musical de Londres. Como baterista, passou dez anos entre Europa, Estados Unidos e Canadá. Neste período, o contato com músicos senegaleses e cubanos o levou, também, para a percussão. Na Índia e no Canadá aperfeiçoou-se com mestres da tabla. De volta em 2000, tem participado ativamente da cena da percussão no Brasil.

 

Matogrossense de Campo Grande, Antonio José Correa Porto, rodou o mundo em turnês acompanhando grandes instrumentistas e cantores (entre eles, Renato Teixeira, Pena Branca e Xavantinho, Almir Sater, Tetê Espindola). Multiinstrumentista, vocalista, compositor e produtor musical, Antonio Porto fez trilhas para espetáculos de teatro e dança. Seu trabalho com o Bianca Gismonti Trio é a mais nova vertente de sua prodigiosa carreira e, com esta formação, viajou numa série de turnês – Brasil, Argentina, Uruguai, Espanha, Portugal, Inglaterra, Áustria e Japão.

 

Ao duo seguiu-se o trio. Quem sabe um quarteto no horizonte? Uma big band? Ou uma sinfônica? No universo criativo de Bianca Gismonti tudo é possível.

 

 

 

1. Olhos fechados

 

O trio nunca foi tão interativo – e introspectivo – como nesta incursão “jarrettiana” de Bianca. “Fiz para o nosso baixista Toninho. Em três partes, representa a profundidade serena de sua alma pantaneira; sua personalidade intimista e suave; e sua energia musical sem limites.”

 

 

 

2. Para Inês acordar sorrindo

 

Alegria e extroversão marcam este tema vivaz. “Compus para Inês, minha aluna e grande amiga. Seu pai, o baixista Zeca Assumpção, tocou durante muitos anos com meu pai. Ela é uma espécie de irmã. Inspirei-me na sua característica alegre e em sua forma linda de tocar.”

 

 

 

3. Cristal

 

De volta à reflexão e ao lirismo. A gaita de José Staneck, com sua sonoridade de catedral, justifica o nome do instrumento em inglês: “mouth organ.” Ele voa livre, sem risco de cair, apoiado num tripé de ouro: os acordes de Bianca, o baixo compassado de Toninho, os pratos sutis de Julio. “Compus em Garobapa, litoral catarinense, inspirada por dois cristais que o Julio comprou nos representando. A música tem este ar cristalino e belo.”

 

 

 

4. Dança, Mandela

 

É o primeiro vocal do disco. Bianca compunha um tema inspirado “no povo africano, com a sua imensa beleza e alegria” quando Julio deu a notícia: “O Mandela morreu.” A música virou logo um Ijexá para Mandela. Por algum tempo ficou apenas instrumental. “Então, no lindo encontro com Paulinho César Pinheiro, tive a bênção de receber a letra de Dança, Mandela. Ao gravar, acrescentamos mais vozes (eu e Toninho), imaginando os coros africanos; e, também, a percussão do grande Djakali Kone.”

 

 

 

5. A Luz sem o véu

 

É a primeira composição “Cole&Porter” de Bianca, parceira de si mesma, letra e música. A letra puxando a melodia, a melodia puxando a letra. Busquei a simplicidade e profundeza do poeta Manoel de Barros e, também, filosoficamente, a necessidade de despir os ‘véus’ para enxergarmos A Luz. A canção nasceu na voz da grande Jane Duboc. Eu a admiro desde sempre com um amor indescritível.”

 

 

 

6. O primeiro céu de Marina

 

Bianca abre com um solo pianíssimo, noturno, com toques discretos de Julio e Toninho. O refrão do teclado evoca suavemente uma canção de ninar. “Fiz para a sobrinha do Julio no seu primeiro aniversário. Escrevi um texto e depois compus a música, inspirada no olhar e na serenidade da pequena Marina ao avistar os balões na sala de festa."

 

 

 

7. Folia

 

Aqui é jazz para valer. À introdução vigorosa do trio, segue-se o sambop de Jessé Sadoc no flugelhorn e no trompete. Depois de uma breve calmaria rica em harmonias, o vendaval retoma e passa bruscamente. “Num dia de imensa alegria, sentei ao piano e comecei a cantar essa melodia, totalmente alegre e festeira. Pensei logo no Jessé Sadoc, que eu admiro profundamente e atuou em Sonhos de Nascimento. Juntos, construímos o arranjo de flugel e trompete. Um som que me dá vontade de festejar.”

 

 

 

8. Glaucia do Samba

 

Bianca surge saltitante em scat, martelando o piano e escandindo a letra como que possuída num transe do Bem. “Esta é para a amiga cantora Glaucia Nasser. Nos conhecemos em Porto Alegre em 2013 e nos identificamos muito desde então. Glaucia nasceu em Minas, mora em São Paulo e ama o Rio. Compus este samba em 5 brincando com essa mistura e com a sua graça. Em estúdio agregamos o maravilhoso pandeiro de Sérgio Krakowski.” 

 

 

 

9. Lenda de Francisco

 

Uma peça feita sob medida para Paula Santoro. Julio acompanha na percussão e a gaita de José Staneck brinca em uníssono com a voz de Paula, com Bianca em backing. “Música e letra nasceram ao mesmo tempo. O refrão ‘que mar, que gente é essa, que mexe com a gente, que nasce em mar’ surgiu com muita força e, em seguida, fui encontrando a história enquanto compunha. Ao final, lembrei da voz maravilhosa de Paula Santoro. Almejo um dia fazer um filme em animação com esta canção.”

 

10. Rio dos Sinos

 

O piano de Bianca viaja, fluvial e meditativo, com subtons impressionistas.

 

“Fiz em 2012 com o nome de ‘Travessias’. Eu imaginava um barco atravessando um rio com as águas calmas e lentas, numa mudança de caminhos. Já em 2014, passando com o Julio por estradas no Rio Grande do Sul, avistei este rio – o Rio dos Sinos – e identifiquei a música, as notas espaçadas, como se fossem sinos de uma igreja, anunciando um atravessar, um ‘navegar é preciso'.”

 

 

 

11. Água de beber

 

Um riff obsessivo em scat desagua num dos grandes clássicos da MPB, momento privilegiado da colaboração Tom-Vinicius. O canto de Bianca, apoiado nas suas teclas mágicas, nunca soou mais envolvente. “Sempre amei esta música do Tom e Vinicius. Um dia, sentei ao piano e a primeira página do Songbook abriu em Água de beber. Logo comecei a cantar e tocar, e a criar um arranjo diferente, baseado na conversa entre o piano e a voz. Apresentei em diversos shows do trio: o arranjo foi ficando cada vez mais livre e fui recebendo o estímulo de muitas pessoas para gravar no disco Primeiro céu.”

 

 

direção | produção Bianca Gismonti | Julio Falavigna

 

gravação | mixagem Renato Alscher

 

estúdios Biscoito Fino | Corredor 5 (RJ)

 

assistência de gravação Gustavo Krebs

 

gravações adicionais Peppe de Souza | Miguel Delaquin | Sergio Krakowski

 

preparação vocal Marcelo Rodolfo

 

edição Bianca Gismonti

 

masterização Marcos Abreu

 

 

 

composições  Bianca Gismonti

 

Editora Branquinho (Sony)

 

Dança, Mandela  Bianca Gismonti | Paulo César Pinheiro

 

Editoras Branquinho (Sony) | Cordilheiras (Tapajós)

 

Água de beber Tom Jobim | Vinicius de Moraes

 

Editoras Jobim Music | Tonga (Universal MGB)

 

 

 

design gráfico Cristina Portella

 

fotografia Daryan Dornelles

 

figurinos Karla Pê | vestido cinza Isabela Capeto

 

maquiagem e cabelo  Teodoro Jr.

 

fotografia de estúdio  Sonia Mibielli | Raphael Braga | Marcelo Rodolfo

 

 

 

BG TRIO

 

 

 

Bianca Gismonti  arranjos | piano | voz | coros

 

Julio Falavigna  bateria | percussão em Lenda de Francisco

 

Antonio Porto baixo | coro masculino em Dança, Mandela | voz em O primeiro céu de Marina

 

 

 

Convidados especiais

 

 

 

Jane Duboc voz

 

Paula Santoro voz

 

José Staneck gaita

 

Jessé Sadoc trompete e flugelhorn

 

Sergio Krakowski pandeiro

 

Djakali Kone talking drum e djembe

 

 

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